Memórias de uma colina vermelha

Já tinha passado a hora do almoço quando chegara à casa dos avós. Ficava num pequeno vilarejo, e na base de uma colina, que apesar de ser pequena era o ponto mais alto da vila. O sol já não ardia e viu uma boa oportunidade para escapulir daquela reunião de família. Correu até a cozinha e cortou um pedaço de melancia, pegou sua almofada favorita e a que sua avó tinha feito. Quando ia saindo, a mãe o apanhou.
– Onde está indo Martin? – Ela falou. Não parecia estar nervosa.
– Estou indo para o alto da colina, aqui tá muito chato! Não aguento ficar ouvindo a senhora fofocando com vovó, imagina quando Alice chegar! – E virou-se para partir antes de sua mãe responder, mas falhou.
– Estamos apenas comentando a vida dos outros, ninguém aqui faz fofoca. E a filha da Alice vai chegar daqui a pouco, por que não fica e espera?
– Não tenho interesse – e saiu rapidamente pelo portão – Beijos mãe!
Subiu o pequeno morro gramado em direção à sombra do Pé de manga que ficava no topo da colina. A subida não demorou muito. Quando chegou lá em cima já tinha terminado de chupar a melancia e sua boca estava carregada de caroços. Deitou-se na sombra da árvore e colocou uma almofada embaixo da cabeça enquanto a outra estava embaixo do braço. Observava a paisagem e disparava caroços para cima em direção ao sol, os projéteis seguiam seu alvo como misseis teleguiados. Ali de cima as cabanas da vila pareciam casinhas de bonecas, e eu sou o vilão que quebra as pernas da Barbie, imaginou, e começou a rir. Pensar que era um vilão gigante o divertia. A risada foi interrompida quando sentiu alguma coisa incomodando-o. Será que deitei em um formigueiro? Mas na realidade era o contorno áspero da almofada que a avó lhe dera. Ela ouve meus pensamentos maus, pensou.
Olhou para o céu e disparou um caroço, dessa vez por pouco não caiu na sua face. Fechou os olhos e abraçou sua almofada favorita, que mantinha embaixo do braço, substituindo alguém que ele não conhecia, mas precisava. Alguém que o intrigava, e por receio precisava abraça-lo, isso o confortava e apertava o travesseiro a sua procura. Adormeceu sonhando com o seu travesseiro fantasma. Quando abriu os olhos para cuspir outro caroço viu o rosto de uma menina olhando-o por cima da cabeça.
Martin né? Eu sou Lina. – A menina disse. Tinha cabelos ruivos, cacheados e despenteados, com mechas bagunçadas descendo-lhe a testa. Uma leve linha de sardas cobria bochechas abaixo dos olhos castanhos amarelados.
S-Sim. – Respondeu com o rosto corando.
Ela o perturbava, todo aquele cabelo vermelho cobrindo-a e seu sorriso pairante lhe deixavam nervoso. Desviou o olhar e ela se afastou um pouco.  Fingiu desinteresse e disparou um caroço ao ar. Num movimento rápido a menina pegou o caroço, fez uma careta e saiu correndo em direção à árvore. Com nenhuma dificuldade escalou os galhos e encontrou um grosso suficiente para se deitar, recostou-se e ignorou-o. Barulhenta num instante e silenciosa no outro.peacock_tree_by_bofink-d38xsxt
O sol desceu até o pé dos montes no horizonte, as nuvens ficaram rosadas, e ela continuou em silencio, ela me perturba, pensou, e fez uma careta. A paisagem o acalmou e a almofada não incomodava mais. O céu ficou vermelho, depois azul, e então ele se levantou para retornar. Passou perto da árvore, silenciosa como se ninguém estivesse ali.
– Vai ficar aqui para sempre? – Perguntou à menina ruiva empoleirada na árvore. – Não há mais nada para ver. – E encontrou o galho onde ela estava, mas ainda estava um pouco escuro.
– Ainda há as estrelas. – Ela respondeu, sem ao menos virar o rosto. E viu seus olhos brilhantes contemplando o céu através da janela de galhos da árvore.
Aquilo o surpreendeu.
F-Faça com quiser – Disse nervoso. Mordeu os lábios e virou-se para ir embora. Com o rosto corado e duas almofadas debaixo do braço ele desceu a colina. Quando chegou à casa já estava escuro. Encontrou sua mãe na varanda cortando laranjas para o avô, Alice estava sentada na cadeira ao lado chupando uma banda já descascada.
Onde está Lina? – Sua mãe perguntou – achei que estivesse com você.
– Ela ficou lá em cima. – Respondeu. E saiu rapidamente para a cozinha evitando mais perguntas. Sua avó estava na beira do fogão quando o notou entrando. Aproximou-se e pegou-o pela bochecha carinhosamente.
– Oi Bochechinha! A melancia estava boa? Você demorou um tempão! – Ela disse. E a única coisa que veio a mente foi Lina pegando o caroço no ar.
E-Estava muito boa – lembrar-se dela o deixava nervoso – Tem mais? – perguntou.
– Tem sim, mas para depois. A sopa está quase pronta! – Ela se afastou e voltou para o fogão.
Quando a sopa ficou pronta Lina ainda não tinha voltado. Terminou de jantar e foi para o quarto. Tentava dormir, mas cachos vermelhos e um rosto sardento o perturbavam e abria os olhos resistindo. Fitou a almofada da avó que lhe pinicava na grama e esmurrou-a gentilmente, em seguida deu-lhe um abraço forte. Meu fantasma, ruivo e perturbador. O abraço o acalmou, e o pequeno Martin adormeceu com um sorriso esticado nas bochechas rosadas.

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