O maldito café verde

A cafeteria tinha acabado de abrir. Martin pegou um livro na prateleira e escolheu uma pequena mesa nos fundos de frente para a porta. Pediu um café à garçonete e inspecionou sua escolha. “A floresta de diabretes” estava escrito de verde na capa do livro empoeirado. Abriu e iniciou a leitura.
Já tinha terminado o primeiro capitulo quando o café chegou, aguado e amargo. Tomou um gole e fez uma careta. Tomou mais um gole para verificar a sanidade. Dessa vez estava mais gostoso, mas não o suficiente. Abusou no açúcar para dar o veredito e acabou arrependido da ideia. Bateu o martelo pelo café e percorreu o olho pelo lugar. Uma mulher entrou ouvindo música, vestindo um moletom preto e calça jeans. Sentou-se na cadeira perto do balcão e pediu um café. Ela tinha pele clara e cabelos negros. Uma mexa branca, notou. Seu café chegou mais rápido que o dele, ela bebericou e fez uma careta. Colocou a mão sob o queixo e apoiou o cotovelo sobre a mesa, estudando o café. Tomou mais um gole e dessa vez pareceu gostar mais. Quase com ele fizera. Agora ela estava apreciando o café e ele apreciando-a.
Não entendia aquele interesse, não era paixão, tampouco era amor. Ela era bonita, mas sua aparência era como uma roupa de banho para sua bela alma. Uma criança não entende o fogo até se queimar. Mas ele estava ali sentado, queimado da cabeça aos pés, vestindo uma bermuda cinza, uma camisa branca e um chinelo, e não entendia. Nenhuma ferida ardia, seu café esfriava e ela não o aquecia.
Era uma humana como todos seus amigos, como sua mãe e sua namorada. Mas todos os humanos que ele conheceu estavam nos extremos e ela no caminho do meio. Curtindo até amar, sofrendo até odiar. Seu temperamento borbulhava no café e Martin não deixou isso escapar. Alguns reclamariam pelo café ruim e levariam a experiência pelo resto do dia, chegariam em casa estressados e sobrecarregados. Uns mentiriam que está uma delicia tentando gostar do café, e continuariam o dia tentando gostar de várias outras coisas. Alguém que ama café aguado apareceria e passaria o dia bem, até alguém morrer. Alguns travariam uma guerra aberta contra a cafeteria e outros se casariam com a garçonete. Ela não gostou no inicio, mas já estava curtindo.
Começou bem o dia. Ele voltou a fitar “A floresta de diabretes”. O caminho do meio… Pensou.
Ele conhecia bem aquele caminho, ficava naquela floresta fechada. O resto do mundo vivia nela. Perdidos, procurando uma rota para a estrada. Nunca tinham saído do caminho, mas não viam o asfalto, e isso era o suficiente para considerarem-se perdidos. Usavam botas para se protegerem dos espinhos e queimavam as árvores para facilitar a procura. Procuravam… Procuravam até a virarem adubo para a floresta que uma vez queimaram. A natureza reivindicava suas energias como um corredor após uma noite de sono.
Ele caminhava pela mesma trilha, andava descalço e enrijecia a sola dos pés. Fazia fogueiras para se aquecer, mas seu ciclo de fogo nunca passou de gravetos. Construía cabanas com galhos e folhas e seguia a trilha. A maldita trilha que nem um meteoro destruiu. A mulher também seguia por ali pulando de nuvem em nuvem, em harmonia com os diabretes. Ele seguia a trilha e ela morava nela. Ele tinha desistido da procura, mas ela nunca chegou a procurar. Ela se curtia, ele tentava se curtir e o mundo batalhava consigo e entre si. Alguns só vivem para ver o mundo queimar, refletiu. Ela manjava da vida, ele das putarias.
A mulher curtiu o café e saiu. O café dele esfriou, ele fechou o livro e colocou na prateleira. Não se importou com o resto da leitura, já tinha descoberto o fim do livro sem ao menos ver o segundo capitulo. Saiu da cafeteria e desistiu daquele maldito café amargo, aguado e adocicado que ficou pela metade.

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